quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

NOTÍCIAS: Os bichos em primeiro lugar


Zoóloga do Bosque dos Jequitibás não pensa duas vezes antes de cancelar compromisso pessoal para cuidar de um animal que precise


Eliana: "Acredito que o animal, quando não está bom ou não se sente bem, demonstra que não é para mexer com ele. Já as pessoas mentem, traem, são falsas. Eu me decepciono com o ser humano todo dia. Nenhum bicho, nesses 18 anos, me decepcionou"
Foto: Cedoc

Jamais coloque a zoóloga Eliana Ferraz numa situação em que ela tenha que escolher entre um compromisso pessoal e seu trabalho. A carreira sempre vencerá a disputa. “As pessoas me cobram muito e eu tento conciliar as atividades profissionais com a convivência com a família, mas sou feliz assim”, garante.

São 26 anos de dedicação ao serviço público campineiro, 18 deles vividos no Bosque dos Jequitibás. É lá que ela se sente em casa, junto dos animais que tanto ama. “Normalmente, fico entre 10 e 12 horas no trabalho. Minha profissão faz criar vínculos com os animais”, explica.


No cargo de coordenadora do bosque, Eliana assume também a função de amiga dos bichos. “É um desafio deixar os compromissos pessoais de lado e, mesmo depois do expediente, sair para resgatar ou cuidar de um animal que está precisando. É preciso optar, mas faz parte”, avalia.

Metrópole – Você sempre gostou de animais?

Eliana Ferraz – Sim. Na infância, aos finais de semana, pedia para meus pais me levarem para passear na Lagoa do Taquaral e no Bosque dos Jequitibás.


Sua carreira na Prefeitura começou direto no Bosque?

Não. Comecei na Biblioteca Municipal, na época em que entrei na faculdade. Fui trabalhar, justamente, para pagar os estudos. Meu sonho era lidar com animais, mas nunca imaginei que seria na Prefeitura. Foi um presente de Deus quando fui transferida para o Bosque dos Jequitibás como funcionária pública.


Como é sua rotina?

Normalmente, fico entre 10 e 12 horas no trabalho. Minha profissão faz criar vínculos com os animais. Tem bicho que chega recém-nascido e necessita de muitos cuidados. Então, às vezes, é preciso até levar para casa. Uma ave quando bebê, por exemplo, deve ser alimentada a cada meia hora. Senão, ela perde energia e morre. Trabalhar com bichos é como ter filhos. E eu faço isso com prazer e muito amor.


Com tantas horas dedicadas ao trabalho, é possível ter vida pessoal?

As pessoas me cobram muito e eu tento conciliar as atividades profissionais com a convivência com a família, mas sou feliz assim. Já tive namorado que cobrou muito, mas não tem jeito. As pessoas têm que me aceitar assim porque isso faz parte da minha vida. Têm que entender que é meu trabalho e que ele é tão importante quanto ficar com meus parentes. Não dá para separar. Pode ser um defeito meu, mas não consigo.


Impossível, então, fazer você escolher entre o Bosque e qualquer outra coisa?


Sim. Porque a resposta será sempre o Bosque dos Jequitibás. Já me fizeram escolher e nem preciso dizer qual foi a resposta, né?


Além de cuidar dos que moram no parque, vocês também recebe outros animais?


O Bosque tem hoje 300 animais, entre 42 espécies de aves, 25 de mamíferos e 15 de répteis. Ele não é um centro de triagem, não tem essa função. Mas recebemos, sim, alguns exemplares, principalmente aqueles que são vítimas de tráfico, atropelamento, cerol, maus-tratos, tempestades e os órfãos. Eles chegam por meio de autoridades como o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar, a Guarda Municipal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Muitas vezes, damos apoio a operações do instituto e mantemos aqui por algum tempo os que foram resgatados. No entanto, não podemos atender a doações de munícipes. Não é possível uma pessoa ligar aqui querendo doar o papagaio, o jabuti ou outro bicho que não queira mais.


Qual o maior desafio em seu trabalho?

O manejo do Bosque é uma tarefa que realizamos bem, mas não existe um dia como o outro. Às vezes, o dia está tranquilo e, no final do expediente, ligam dizendo que um animal foi encontrado com algum problema. O desafio é então deixar os compromissos pessoais de lado e, mesmo depois do expediente, sair para resgatar ou cuidar de um bicho que está precisando. Imagine que outro dia eu estava indo para casa e chegaram até mim filhotes de pica-pau que caíram do ninho, ainda de olhos fechados. Se eu não cuidasse deles naquele momento, preparasse a alimentação, levasse para casa, ficasse com eles e esquecesse meus compromissos, eles não sobreviveriam. É preciso optar, mas faz parte.


Você fala bastante em filhotes... Prefere cuidar dos pequenos?

Eu adoro cuidar de filhotes, porque é possível acompanhar de perto a evolução deles. Desde quando chegam, muitas vezes mutilados, com sequelas ou sem comer, vamos cuidando dia após dia e vendo a melhora deles.


Qual animal te dá mais trabalho?

Gente. Acredito que o animal, quando não está bom ou não se sente bem, demonstra que não é para mexer com ele. Já as pessoas mentem, traem, são falsas. Eu me decepciono com o ser humano todo dia. Nenhum bicho, nesses 18 anos, me decepcionou.


Quais seus objetivos no Bosque?

Que os animais sejam felizes. Por mais que eu adore ter contato com os bichos que criei desde pequenos, tenho a consciência de que eles precisam ter contato com indivíduos da espécie, formar famílias e se reproduzir. Claro que esses bichos são humanizados, porque tiveram contato com o homem, mas, mesmo com essa intervenção, trabalho para que eles sejam apenas animais. E também acredito na importância do zoológico. Sei que há pessoas que não gostam e respeito as opiniões. Mas, se eu não acreditasse no meu trabalho, no veterinário que trabalha comigo, não estaria aqui. A função do zoológico não é somente promover lazer, mas também servir para conservação de espécies, pesquisa, reprodução, recolocação no habitat e educação ambiental. Recentemente, tivemos uma grande obra no lago, que foi revitalizado e canalizado. Estamos novamente prontos para receber visitas.


Que orientação você dá a quem vai visitar o local?

Que não jogue nada para os animais. Perdemos muitos bichos por causa da ingestão de corpos estranhos, como sacos de pipoca. O bosque é um lugar para tirar fotos e aproveitar, não para colocar os animais em risco.
 
 
Matéria publicada originalmete em:
Crédito da matéria: Eduardo Gregori   gregori@rac.com.br